Quando M. tinha 2 anos, levamo-lo ao cinema pela primeira vez. Ele gostava de filmes, aguentava um filme inteiro na TV e os tios queriam ser eles a partilhar com ele a primeira experiência na sala do grande ecrã. Como ele era bastante pequeno, disse-lhe que se ele quisesse, podíamos sair da sala a qualquer altura. Disse-lhe varias vezes para ele saber que podia. O certo e que mal o filme começou, o M. quis sair. Confirmei com ele e disse-lhe que se nos fossemos embora, já não podíamos voltar, e ele garantiu-me que queria sair. E saímos. Fiquei bastante frustrada na altura, e irritada comigo mesma por lhe ter dito aquilo, mas passada a irritação inicial, pensei que tinha sido bom. M. tinha testado a minha palavra, e eu tinha cumprido. E ele passou a saber nas próximas vezes que podia mesmo confiar em mim. Desde então já fomos muitas vezes ao cinema juntos, e o grande ecrã é algo que temos como partilha de tia e sobrinho.
Nunca mais me lembrei desta história até que estas ferias de Natal R. Foi passar uma noite na escola. Como ela e muito agarrada à mãe e custa-lhe dormir fora de casa andou a pensar se devia ou não ir. Eu tentei convencê-la a ir, e ela acabou por decidir-se. Disse-lhe que se ela quisesse, eu iria busca-lá, independentemente da hora. Ela perguntou-me, mesmo que seja a meio da noite? Ao que eu respondi que sim, mesmo que fosse a meio da noite. E assim foi, a 1.30 da manhã, lá fui eu buscá-la à escola, onde todos os coleguinhas estavam a dormir há horas... Fiquei triste, por ela, pela dependência. Mas no dia seguinte, lembrei-me da história do M. E do cinema e pensei que havia uma coisa boa no meio disto tudo, a confirmação da confiança. A certeza de que quando digo uma coisa, a faço (excepto quando não e mesmo possível...). E pensei que não há mesmo substituto dessa confiança. E espero que futuras experiências de dormir fora de casa, não acabem comigo a ir a meio da noite buscá-la. Mas agora ela sabe que se eu disser que vou, é porque vou.
Joana